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DESILUSÃO


Por Alberto Queiroz
Minha mãe costumava me dizer sempre: “quem com porcos se mistura, farelos come”. Lembro disso desde o primeiro governo do PT, o qual ajudei a eleger. Aliás, votei e contribui com o partido desde seu início, acreditando que, de fato, “a esperança venceria o medo”. Ledo engano. Ao se misturar com figuras execráveis como Temer, Sarney, Renan, Aécio, Jarbas, Cabral, Eunício, Renan, Collor, Maia, Cunha, Maluf e tantos outros, lembrei o velho ditado repetido inúmeras vezes por minha mãe. Só que o PT, além de “comer farelos”, se empanturrou e engasgou o grito de esperança com que ingenuamente sonhava.
A desculpa de que precisava negociar com as forças políticas retrógradas para governar, o que justificou o “mensalão”, nunca consegui engoli. Afinal, votei na esperança de que haveria uma mudança. A reforma política necessária e prometida, dentre outras coisas, para reduzir o número de partidos – hoje, em sua quase totalidade – verdadeiras organizações criminosas - foi rapidamente abandonada e o PT adotou exatamente a mesma estratégia daqueles a quem pretendíamos afastar do poder. A corrupção se exacerbou porque era muito mais fácil continuar no mesmo modo de fazer política e se perpetuar no poder. Assim, o projeto do sonho foi pragmaticamente abandonado, mesmo com a possibilidade de fazer as reformas necessárias, com a legitimidade dos 53 milhões de votos conquistados nas eleições de 2002. O PT deu continuidade ao varejão da política rasteira, substrato para a intensificação do jogo nefasto da corrupção. Por isso, desde 2006 não mais votei no PT e me desiludi com a política. Aliás, essa desilusão foi um dos legados do PT, que decepcionou muitos corações.
Hoje, com a decretação da prisão do Lula, sobrevém um gosto amargo. Nada a comemorar – muito pelo contrário -, mas também nada a contestar sobre o trabalho heroico e competente desses jovens Procuradores e Juízes da Lava-Jato, que fazem com que uma réstia de esperança ainda volte a brilhar.
De fato, algumas conquistas vieram com o PT, principalmente a melhoria do salário-mínimo e a maior inserção dos pobres no mercado de consumo. Também, do ponto de vista legal, muitos avanços advieram, como a lei anticorrupção e a lei de combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado, que, ironicamente, foram utilizadas exatamente contra inúmeras figuras e líderes petistas.
Em compensação, a educação de esfarfalhou, num projeto populista de universalização em detrimento da qualidade. As universidades públicas, ao mesmo tempo que se espalharam pelo país, tiveram a maioria de seus campi sucateados. A pesquisa se acabou. Já as IES privadas - grandes beneficiadas por essa política desastrosa - floresceram graças às benesses do FIES e do Pronatec (grandes negócios que atraíram inúmeras corporações internacionais), enquanto as universidades públicas quebravam. O rentismo se acentuou, com os bancos auferindo lucros exorbitantes – como nunca antes nesse país - com uma política de juros estratosféricos que destruiu nossa indústria, comprometeu nossa competitividade e destruiu, ao final, milhões de empregos. A associação e parceria com as oligarquias dos empreiteiros, verdadeiros donos do poder, resultou na quase destruição da Petrobras e de tantas outras empresas estatais. O discurso messiânico do salvador da pátria, incapaz ou sem disposição de formar novas lideranças, gerou um grupo de fanáticos que se recusam a ver os fatos ou, simplesmente, justificam os “mal feitos”. Roubar dinheiro público para a esquerda passou a ser visto como “revolução”. Quando a direita rouba, aí sim é “corrupção”.
Quanto a essa discussão do STF, sobre o princípio da presunção de inocência até o transitado em julgado, penso ser uma excrescência, num país em que a lentidão da justiça é uma marca. Coincidentemente, tal discussão só é pautada quando o crivo da justiça começa a se aproximar dos políticos e poderosos, porque, até então, nada era questionado quando só sobrava para os pobres e sem acesso aos inúmeros recursos bancados a troco de fortunas recebidas pelos grandes escritórios de advocacia.
O efeito prático da interpretação literal da carta magna chama-se impunidade, principalmente e quase exclusivamente para os ricos e donos do poder. Se valesse, de fato, nossas prisões não estariam transbordando apenas daquelas pessoas desafortunadas, que não podem recorrer aos sofisticados e caros escritórios dos Kakays, Pertences e Zanins.
Por tudo isso, sinto hoje uma enorme desilusão...

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