Por Ruy
Espinheira Filho
Escritor,
pertencente à Academia de Letras da Bahia
Em Carnaval
antigo surgiu uma marchinha que fez muito sucesso, “O cordão dos puxa-sacos”.
Começava assim: “Lá vem o cordão dos puxa-sacos/dando vivas aos seus
maiorais/quem está na frente vai passando para trás/e o cordão dos puxa-sacos
cada vez aumenta mais.” Sim, porque o que nunca faltou neste país foram
puxa-sacos. Certo que no mundo inteiro eles também não faltam, mas os que nos
interessam são os nossos. Cito de memória Mario Quintana (grande poeta que não
entrou na Academia Brasileira de Letras, obviamente por não ser tão bom
escritor como o gênio José Sarney): “Por pior que seja a situação na China,/ os
nossos calos doem muito mais”.
Na verdade, ocorreu-me o dito cordão porque estava
pensando em outro que por muitas razões me lembra aquele, já que bajulação rima
perfeitamente com corrupção. E em que é que estava pensando? Num cordão
atualíssimo e que, como o outro, cada vez aumenta mais: o Cordão dos Inocentes.
Que, como o avanço das investigações sobre corrupção, cresce sem parar. É só aparecerem
denúncias ou indiciamento – e eis o cordão caindo no Carnaval. Animadíssimo!
Ainda precisando investir mais na Ala das Baianas, mas com uma Ala Jurídica milionária,
ou bilionária, indiscutivelmente admirável. É por essas e outras que, como
diria o conde Afonso Celso, eu me ufano do meu país.
O quê? Tais e quais são corruptos, ladrões? Ouçamos o
Cordão dos Inocentes: ninguém fez nada; o Imposto de Renda não notou coisa
alguma de irregular; nenhum desses inquéritos é sério, são ações que – como
disse Romero Jucá – só objetivam a “criminalização da política”; ora, por que
alguém não pode comprar apartamentos de vários milhões, fazendas e outros bens,
só porque há pouco não tinha onde cair morto? Perseguição clara. Notem que o
Imposto de Renda...
Pois é. O problema foi
para Al Capone, que não soube declarar Imposto de Renda. Assim, é de se
elogiar, e muito, a capacidade que têm os nosso Inocentes de fazer declaração
do IR. Al Capone deve estar se revolvendo no túmulo...
PUBLICADO NA COLUNA OPINIÃO, DO JORNAL A TARDE, EM 26/04/2018
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